Padre Anchieta, Apóstolo do Brasil

Anchieta: um jesuíta com vestes franciscanas para a praça da Sé!

Texto: Paula Janovitch. Modelagem 3D: Nathan Lavansdoski Menegon, Laura Sayuri de Haro. Pós-Produção: Luís Felipe Abbud, João Generoso Gonzales.

Em 1954, com as comemorações do IV Centenário da Fundação de São Paulo, o Grupo Sul-América doou à cidade um monumento em homenagem ao Padre José de Anchieta. Com o monumento já finalizado pelo escultor italiano Heitor Usai a homenagem a Anchieta tornou-se alvo de questionamentos ao longo de várias sessões da Câmara Municipal da cidade no ano de 1954, em meio às discussões que se faziam quanto a seleção de símbolos e narrativas sobre a fundação da cidade de São Paulo no seu IV Centenário.

Os debates em relação ao monumento iam desde sua concepção estética – as vestes do padre pareciam mais de um franciscano com a cabeça de jesuíta – até críticas à alguns quadros do pedestal – como à ‘Paz de Iperoig’ que, aos olhos da colônia portuguesa, poderia ser interpretada como uma ação antilusitana. Para os representantes da colônia portuguesa, no quadro do pedestal, o padre Anchieta parecia tentar proteger os índios dos maus colonizadores. Como pano de fundo destes debates na Câmara em torno da concepção de Anchieta, destacava-se ainda o local onde a obra seria instalada, a praça da Sé, próximo de outro monumento que simbolizava uma nova centralidade de São Paulo, o Marco Zero (1934).

Este território daria à imagem de Anchieta uma relevância única na fundação da aldeia de Piratininga, o que para alguns críticos da obra poderia levar à interpretações que o padre Anchieta fora a única figura grandiosa na história da fundação da cidade.

Ao longo da suspensão da instalação da estátua no espaço público, surgiu nas sessões da Câmara uma outra proposta de doação de um monumento coletivo de imigrantes e descendentes de portugueses. Para os críticos de Anchieta, isso seria muito mais verossímil em relação à fundação da cidade e sua implantação nas proximidades do Marco Zero. Porém, o projeto proposto por este grupo ainda estava no papel e foi preterido diante do monumento a Anchieta que já estava finalizado.

No dia 09 de dezembro de 1954, a comunidade e autoridades participaram da inauguração do monumento na praça da Sé, bem de costas para a Catedral, próximo ao Marco Zero e circunvizinho ao Pateo do Colégio. Para acalmar os ânimos e contemplar a todos, Anchieta veio à público com a inscrição ‘Padre Anchieta, Apóstolo do Brasil’, sem menção a sua relevância na fundação da cidade para não criar mais conflitos.

Já o Monumento aos Fundadores de São Paulo (1963), sugerido pela colônia portuguesa como a melhor narrativa da fundação da cidade em 1954, foi instalado anos depois, em 1963, na praça Clóvis Bevilacqua, próximo a praça da Sé. Mas nos anos de 1970, em função das obras do metrô (Estação Sé), o conjunto monumental foi removido e reinstalado na rua Manoel da Nóbrega, onde está até hoje.

Referências

  1. Michelli Cristine Scapol Monteiro (2019). Uma trajetória sinuosa: o Museu Paulista e as apropriações da Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva, Anais Museu Paulista, vol.27.
  2. Atas da Câmara Municipal de São Paulo (1954). ‘Anchieta ou Nóbrega?’
  3. Fátima Antunes. Dep. de Patrimônio Histórico de São Paulo. Artigo ‘Padre Anchieta, Apóstolo do Brasil.’
  4. Obras de Arte em Logradouros Públicos de São Paulo, Regional Vila Mariana, Registros 16, PMSP/SMC. 1993
  5. O Estado de São Paulo, 24/jun./1954.

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